O Que Nietzsche Viu no Abismo

Quem investiga a origem dos valores não fica fora deles. Nietzsche, genealogia da moral, ressentimento e o abismo que também olha de volta.

NIETZSCHE E EXISTÊNCIA

Flávio Sousa · Psicólogo fenomenológico-existencial · CRP 02/21.404

30 out. 20269 min de leitura

Homem olhando para o abismo

Há uma imagem que o tempo preservou: a de um jovem que caminha pelas montanhas com um caderninho no bolso. Nietzsche pensava andando. E o que anotava, voltava às cartas e às páginas que sublinhava com a obstinação de quem não lê para concordar. Leu os gregos com intimidade rara, e a filologia lhe ensinou uma coisa decisiva: um texto tem história, e quem o recebe como se tivesse caído do céu não o leu.

O caderninho não é adorno, mas sinal de um trabalho, o de pensar como quem investiga, contra a pressa das respostas. Dele não se segue que as ideias tenham brotado das dores do autor, e é prudente recusar essa explicação, que costuma servir para dispensar a leitura. A biografia entrega algo mais modesto: um homem que fazia perguntas e se recusava a encerrá-las.

Uma delas atravessa a obra inteira: de onde vêm os valores pelos quais vivemos? Como adquiriram autoridade sobre nós? E o que acontece quando essa autoridade deixa de parecer evidente?

Quando o chão deixa de sustentar

No aforismo 125 de A Gaia Ciência, um homem louco acende uma lanterna em plena manhã e corre à praça procurando Deus. Os que o cercam, em sua maioria, não creem, riem. O louco os atravessa com o olhar: nós o matamos, vós e eu.

A cena costuma ser lida como notícia sobre a religião, e assim se perde o essencial. O que está em jogo não é a falsidade de uma crença, mas a ruína de um fundamento. Durante séculos, a moral, o sentido da história e a distinção entre bem e mal tiveram em Deus a sua garantia. Retirada a garantia, o edifício continua de pé. Hábitos, instituições e juízos seguem em funcionamento por inércia, como um mecanismo que ignora a própria ruptura. Os homens da praça riem porque ainda vivem como se nada tivesse acontecido.

Chamar isso de niilismo exige cuidado. O termo não designa um desalento íntimo, a sensação privada de que nada faz sentido. Designa um processo histórico em que os valores supremos se desvalorizam. A perda pode ressoar na vida de cada um, mas não se confunde com essa ressonância. Tampouco promete liberdade. Pode lançar os homens à nostalgia das antigas certezas ou à pressa de erguer novos absolutos no lugar dos velhos.

Eis a primeira camada do abismo: valores que já não se sustentam por si mesmos e que, mesmo assim, comandam.

O que sustenta os valores

Se os valores perderam o fundamento, resta saber como chegaram a parecer sustentados. É a tarefa da genealogia. Em Genealogia da Moral, o filósofo alemão não se contenta com a explicação de que os valores foram transmitidos e ensinados. Pergunta pelas condições em que nasceram, pelas formas de vida que expressam e pelos efeitos que exercem sobre quem vive sob eles. A moral deixa de ser dado e passa a ser acontecimento, com interesses e afetos que a tornaram possível.

O leitor apressado pode concluir que tudo é arbitrário e que descobrir a origem de um valor o refuta. Nietzsche não autoriza a inferência. O que a genealogia retira ao valor é a aparência de neutralidade, o direito de se apresentar como natural e independente das forças que o produziram. Resta perguntar o que ele favorece, o que restringe e que vida torna possível ou impossível.

O abismo se aprofunda: já não é só um fundamento ausente, mas uma história que o encobria.

Quando o conflito se volta para dentro

Na segunda dissertação da Genealogia da Moral, o autor propõe uma hipótese sobre a má consciência. Sob a pressão da vida em sociedade, impulsos que antes se descarregavam para fora foram impedidos de fazê-lo. Não desapareceram: voltaram-se para dentro. O animal humano passou a ser aquele que se maltrata e se interpreta como culpado. A interioridade, nessa narrativa, é resultado dessa retenção.

Ao lado disso, ele rastreia a ligação entre culpa e dívida. Em alemão, Schuld nomeia as duas coisas, e a proximidade é pista. A relação entre credor e devedor, transposta ao longo da história para a relação com os antepassados, com os deuses e, por fim, com um Deus a quem nenhuma dívida poderia ser paga, torna a culpa interminável.

É um argumento genealógico, não um quadro clínico. Nietzsche não descreve baixa autoestima nem o escrúpulo cotidiano. Descreve um longo processo em que uma existência aprende a interpretar os próprios impulsos pelos critérios de um ideal que os condena, e a voltar contra si forças que poderiam ter outra direção. Quem escuta pessoas reconhece familiaridades, mas a equivalência deve ser retardada: a genealogia não é uma categoria da psicologia.

O abismo já não está só nos valores que governam uma sociedade. Está nas formas de relação consigo que esses valores favorecem.

Quando avaliar se torna reagir

A primeira dissertação distingue dois modos de avaliar. No nobre, a avaliação parte da afirmação de si, e só depois, como contraste, se designa o que é ruim. No modo do ressentimento, a ordem se inverte: começa-se pela negação de um fora, e dela se deduz que bom é quem não faz o que o outro faz. O inimigo precede a afirmação. Sem ele, o valor não se sustenta.

O ponto mais agudo é este: a impotência para agir de certa maneira pode converter-se em condenação daquilo que não se consegue realizar. O que se apresenta como superioridade moral funciona, em tal configuração, como reação, como modo de dar sentido a uma condição que de outro modo seria insuportável.

Cada palavra exige cautela. Nietzsche não escreve que toda moral é ressentimento, nem que quem sofre se torna ressentido, muito menos que toda crítica ao poder denuncia fraqueza. O texto tampouco autoriza tomar a força como virtude ou usá-lo para justificar a dominação. A análise é histórica e circunscrita.

Ainda assim, suas consequências a ultrapassam. Se um juízo moral pode ser a forma que a reação assumiu, a avaliação deixa de ser expressão transparente de valores escolhidos. Há nela conflitos e afetos que o próprio avaliador pode não reconhecer. O abismo agora é admitir que o modo como julgamos o mundo e os outros pode dizer algo sobre como nos relacionamos com a própria existência.

O abismo também olha de volta

Em Além do Bem e do Mal, o pensador adverte:

Aquele que luta contra os monstros deve vigiar para não se tornar um deles. Ora, quando teu olhar se fixa por muito tempo no fundo de um abismo, o próprio abismo penetra em ti. Nietzsche

Costuma-se tomá-lo como lição de autoconhecimento ou aviso contra a introspecção. Essa leitura o apequena. Estas palavras não falam de quem olha para si, mas de quem investiga, e diz algo mais inquietante: o investigador não permanece fora do que examina.

Até aqui, tudo parecia ocorrer diante de nós, como objeto de exame: valores, moral, consciência, ressentimento. O aforismo desfaz a distância: quem procura a origem dos valores também tem valores. Quem analisa o ressentimento também avalia e reage. Os critérios com que julgamos os outros, ao serem interrogados em suas condições de formação, voltam sobre quem os usa.

Não é uma lei psicológica. Nada autoriza dizer que o estudioso do ressentimento se torna ressentido. É um risco, e a diferença entre risco e fatalidade é decisiva. Mas é um risco real: o de que a crítica aos outros não esteja separada daquilo que o crítico procura negar em si, e o de que a denúncia de uma moral seja ela mesma uma forma de moral.

O abismo muda de natureza. Deixa de ser o que se contempla e passa a desestabilizar não só as convicções, mas a imagem que fazemos de nós como quem examina de fora.

A transvaloração e o risco de novas submissões

Só aqui cabe falar da transvaloração de todos os valores, e é fácil tomá-la por remédio. Convém resistir.

Se os valores têm história, se a consciência pode voltar o conflito contra si, se o juízo pode ser reação e se o investigador está implicado no que investiga, reavaliar não pode ser trocar valores herdados por valores próprios, como quem troca de roupa. Essa leitura supõe um si mesmo intacto, à espera do momento de escolher, e a genealogia abalou justamente essa suposição. Tampouco se trata de achar uma verdade interior deixada à vista pela queda dos fundamentos.

Há uma armadilha mais discreta. Negar o que antes se afirmava não é superar os critérios com que se avaliava. A inversão pura permanece presa ao que inverte, e a reação contra um valor ainda depende dele. A demolição das referências abre possibilidades, mas abre também a desorientação, o ressentimento renovado e a adesão a novos absolutos.

Não há técnica para criar valores, nem garantia de que a perda das certezas será compensada por um achado. A transvaloração é antes uma exigência: avaliar de novo sem recorrer de imediato a fundamentos que dispensem o questionamento, e sem fingir que a investigação não deixou marcas. Ela não encerra o abismo. Torna-o mais exigente.

O que se viu

Os valores podem perder o fundamento e continuar a mandar. As avaliações têm história e função. A consciência pode interiorizar conflitos até fazer deles culpa. O juízo moral pode nascer da reação. O investigador pode ser alcançado pelo que investiga. A transformação não garante a superação das dependências anteriores.

O que Nietzsche viu não foi uma essência humana nem uma verdade última. Foi uma condição: a de seres que se orientam por critérios cuja formação não dominam por inteiro. Isso não autoriza concluir que tudo é ilusão ou que nenhum juízo pode ser legítimo, e não consola com a promessa de uma liberdade sem condicionamentos. Permanece uma tensão: compreender as condições em que nossos valores se formaram não nos põe fora delas, reconhecer a possibilidade do ressentimento não nos torna imunes a ele, e questionar certezas antigas não impede que as novas operem por mecanismos parecidos.

Somos capazes de interrogar os valores que nos orientam, e é essa capacidade que o abismo revela. Mas a interrogação não nos concede um lugar exterior à história, aos afetos e às formas de vida que nos constituem. Fala-se de dentro do que se examina.

O jovem do caderninho voltava das caminhadas com frases que ainda não eram doutrina. Não sabemos o que se lhe apresentou em cada uma, e é melhor não inventar. Mas sabemos que continuou a perguntar. Resta saber, para quem o lê, de que lugar a pergunta é feita, e quem, no fundo dela, também olha.

Flávio Sousa, psicólogo fenomenológico-existencial, CRP 02/21.404

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